Regeneração não é restauração: é uma relação que nunca termina

Vozes da Regeneração | Bill Reed

Entre os pioneiros que levaram a conversa para além da sustentabilidade e do “causar menos dano”, Bill Reed, sócio da Regenesis, Inc., defende que regenerar é permanecer em relação com os lugares: observar, ajustar e aprender continuamente. Nesta entrevista, ele fala sobre o risco de esvaziar a palavra “regenerativo”, sobre o que o turismo precisa mudar e sobre o trabalho interior que sustenta a regeneração.

Você esteve entre os pioneiros que ajudaram a levar a conversa para além da sustentabilidade e do “causar menos dano” em direção ao desenvolvimento regenerativo. Hoje, à medida que a palavra regenerativo se torna cada vez mais popular, o que você acredita que corremos mais risco de entender mal, ou de perder, do seu significado original?

A confusão mais comum, na minha experiência, é que a nossa cultura tende a equiparar regeneração e restauração. A restauração é, sem dúvida, parte da regeneração (não quero diminuí-la), mas tratar as duas como sinônimos reduz algo muito maior a um tamanho que cabe com mais conforto nos nossos referenciais atuais. A restauração, entendida corretamente, é o processo de restabelecer uma massa crítica de espécies e de suas inter-relações dentro de um subsistema ecológico, a ponto de esse ecossistema recuperar sua própria capacidade de autoorganização e de evolução. É um trabalho real e necessário. Mas, uma vez que você restaurou um sistema até esse ponto, onde os seres humanos de fato se colocam em relação a ele?

O enquadramento da restauração, se formos honestos, tende a nos colocar como consertadores. Diagnosticamos o que está quebrado, intervimos, reparamos e, implicitamente, nos afastamos e damos o trabalho por encerrado. É uma história linear, com começo, meio e fim. A regeneração pede algo diferente de nós, e acredito que este é o ponto que mais corre o risco de se perder à medida que a palavra ganha popularidade sem o entendimento que originalmente lhe deu peso. A regeneração nos pede que compreendamos de verdade a natureza dos lugares que habitamos (não apenas seus danos, mas seu caráter, seus padrões, seu modo de funcionar) e que nos engajemos, então, em um processo contínuo de observação, avaliação e ajuste de rota. Às vezes isso significa acrescentar. Às vezes, remover. Nunca está terminado, porque os lugares com os quais trabalhamos nunca estão terminados. Eles mudam continuamente, e o nosso engajamento precisa mudar com eles.

Isso redefine o papel humano. Não estamos fora do sistema, chegando para consertá-lo e depois partindo. Somos parte do próprio processo adaptativo, o que significa que a postura que a regeneração realmente exige é a de humildade e atenção, e não a de especialização e conclusão. Significa permanecer atento para onde a diversidade e as possibilidades querem emergir enquanto o sistema segue evoluindo, em vez de declarar o trabalho concluído assim que alguma linha de base anterior foi restabelecida. Somos, no sentido mais verdadeiro, guardiões e cuidadores conscientes, não porque isso seja uma forma mais agradável de dizer consertador, mas porque descreve uma relação inteiramente diferente: uma relação contínua, recíproca e nunca finalizada, porque a própria vida nunca está finalizada.

É isso, penso eu, que se perde primeiro quando “regenerativo” se torna uma palavra popular em vez de uma prática: o reconhecimento de que não nos “formamos” e deixamos a relação.

O desenvolvimento regenerativo começa pela compreensão do potencial único de cada lugar, e não pela importação de soluções ou pela replicação de “melhores práticas”. O turismo, no entanto, muitas vezes fez o oposto: padronizou experiências e transformou lugares em produtos. O que precisaria mudar para que o turismo se tornasse uma verdadeira força de desenvolvimento para os lugares e as comunidades que o recebem?

Para que o turismo se torne uma verdadeira força de desenvolvimento, ele precisaria ter no centro um novo ethos: o compromisso de honrar e valorizar os atributos únicos e a essência de cada lugar, em vez de tratar o lugar como matéria-prima para uma experiência que poderia, com pequenas variações, ser entregue quase em qualquer outro lugar. Boa parte do que hoje chamamos de desenvolvimento turístico é, na verdade, a replicação de uma fórmula (o resort, o pacote de passeios, o mercado “autêntico” cuidadosamente montado), ajustada de leve com um pouco de cor local. O que descrevo é quase o oposto: um desenvolvimento que só poderia ter surgido deste lugar em particular, com esta história em particular, e que não poderia ser tirado dali e instalado em outro ponto.

Um lugar cujo turismo está genuinamente enraizado na sua própria essência torna-se, na prática, impossível de substituir. Nenhum outro lugar pode competir com ele, porque não há nada sobre o que competir. Ele não oferece um produto intercambiável a um preço menor ou com um pacote de comodidades mais sofisticado. Oferece a si mesmo, o que, por definição, não tem substituto. Isso é, acredito, uma boa notícia para comunidades que se perguntam como manter sua posição diante da pressão implacável, sempre para baixo, de uma indústria construída sobre comparação e conveniência.

Chegar lá, porém, exige algo diferente das pessoas e dos lugares envolvidos. Exige que assumam o papel de anfitrião, e não o de vendedor. Um anfitrião acolhe o hóspede em uma relação. Um vendedor vende uma transação. Isso produz posturas inteiramente diferentes, economias inteiramente diferentes e, eu diria, sentimentos inteiramente diferentes no viajante, ainda que ele não saiba articular a diferença. A maioria das pessoas que viajam com alguma intenção real tem fome de algo autêntico, algo que nasça de uma conexão genuína e não de uma performance (e acho que essas pessoas são mais numerosas do que a indústria reconhece). Poderíamos chamar isso de uma relação de essência para essência: o próprio eu do viajante, em sua busca e curiosidade, interagindo com a natureza real de um lugar e de seu povo, em vez de se deparar com uma fachada cuidadosamente elaborada para simular essa natureza.

O turismo de massa, quase por definição, impede isso. Escala e essência puxam em direções opostas. Quanto mais um destino é otimizado para absorver grandes volumes de visitantes com eficiência, mais a sua particularidade é lixada até virar algo genérico o bastante para ser consumido de forma rápida e repetida; em outras palavras, uma versão do lugar, e não o lugar em si. E penso que existe um ponto além do qual isso deixa de fazer sentido nos seus próprios termos, e não apenas nos éticos. Quando o turismo se torna uma extração de dinheiro em troca de uma performance artificial e exagerada das características mais superficiais de uma cultura ou de uma paisagem, ele perdeu o fio daquilo que tornava o lugar digno de ser visitado. Passa a se alimentar de algo que, ao mesmo tempo, está esvaziando.

O que o turismo precisaria, então, não é de um melhor marketing da autenticidade, mas de um retorno real à relação que a autenticidade sempre descreveu: comunidades como anfitriãs da sua própria história em curso, e viajantes convidados a entrar nessa história como hóspedes, por um tempo breve, em vez de receberem uma impressão fabricada dela.

Uma das ideias mais profundas do desenvolvimento regenerativo é que a regeneração não é algo que simplesmente “fazemos” a um território: ela exige que as pessoas desenvolvam a capacidade de participar da evolução de um sistema vivo. Que capacidades internas líderes e comunidades precisam cultivar para se tornarem verdadeiros parceiros nesse processo?

Participar do processo evolutivo da vida exige que nós mesmos estejamos evoluindo. Isso não é uma observação moral à parte, antes do trabalho de verdade começar: é o trabalho de verdade, ou, pelo menos, o terreno sobre o qual ele se apoia. Um exemplo simples deixa isso claro: se eu estou sendo uma pessoa insuportável, o que acontece com todos nós às vezes, não vou ser um contribuinte eficaz para o trabalho de uma equipe ou de uma organização. E as tarefas que temos pela frente (a saúde de uma comunidade, a saúde de um ecossistema) não são tarefas que uma única pessoa realiza sozinha. Elas exigem grupos de pessoas trabalhando juntas, para além de diferenças reais, ao longo de um tempo real. Portanto, a condição interior de cada pessoa nesse grupo não é um assunto privado. Ela é parte integrante do processo contínuo.

Chamamos isso, na nossa prática, de as três linhas de trabalho: a evolução de si mesmo, o desenvolvimento da efetividade do grupo e ambos a serviço do sistema vivo maior no qual estamos inseridos. As três não são sequenciais. Você não termina de trabalhar em si mesmo para depois passar ao grupo, terminar o grupo e só então passar à bacia hidrográfica ou à comunidade. Elas são simultâneas e aninhadas. O crescimento de uma pessoa aparece no modo como o grupo funciona. O funcionamento do grupo aparece no que se torna possível para o sistema maior. E o sistema maior, se você estiver atento, vai devolvendo informações sobre onde a pessoa e o grupo ainda têm trabalho a fazer. É um ciclo, não uma escada.

O trabalho sobre si, em particular, costuma ser deixado de lado, creio que por ser o mais desconfortável e o mais difícil de encaixar num plano de trabalho. Sem a humildade para aprender de verdade com os outros, e sem a confiança e o tato para oferecer ideias novas mesmo quando a sala está insegura ou em conflito, o grupo tem dificuldades. Quando o grupo tem dificuldades, o sistema maior que ele deveria servir também sofre. Humildade sem confiança produz pessoas que nunca oferecem nada. Confiança sem humildade produz pessoas com quem ninguém consegue pensar junto. É preciso ter as duas, mantidas juntas, e essa combinação não surge por acaso.

O que permite que ela se desenvolva é uma prática reflexiva. Isso significa a disciplina de observar a si mesmo enquanto se move pelo trabalho e, de modo crucial, lembrar do que você notou nos momentos que mais importam: no meio de uma discordância, no meio da exploração de um pensamento que ainda não encontrou sua forma, quando seria muito mais fácil se refugiar em ter razão do que permanecer no desconforto de ainda não saber. Esse é o verdadeiro teste da prática. É fácil ser reflexivo em momentos tranquilos, sozinho com o seu diário. É muito mais difícil, e muito mais valioso, levar essa mesma autoconsciência para dentro da sala enquanto o debate ainda não foi resolvido e o resultado continua incerto.

Sobre o entrevistado

Bill Reed é consultor de planejamento, facilitador de processos de design, palestrante, professor e autor reconhecido internacionalmente nas áreas de sustentabilidade e regeneração. É sócio da Regenesis, Inc., organização de design regenerativo, integradora de sistemas vivos e educação. Seu trabalho se concentra na criação da estrutura e na gestão de um processo de design integrativo, holístico e de sistemas vivos, conhecido como Desenvolvimento Regenerativo, cujo objetivo é melhorar a qualidade da vida física, social e espiritual dos nossos espaços de convivência e, consequentemente, do planeta.

Coautor da obra seminal Integrative Design Guide to Green Building (Guia de Design Integrativo para Construção Sustentável), é membro fundador do Conselho Diretor do US Green Building Council e um dos cofundadores do sistema de certificação LEED para edifícios sustentáveis. Considerado um dos principais pensadores da área, atuou como consultor em mais de duzentos projetos de design sustentável, entre edifícios e planos diretores urbanos. É também palestrante principal em importantes eventos de construção e design e professor convidado em universidades da Europa, da América do Norte e da Oceania, incluindo Harvard, MIT, Princeton e UPenn.

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