Vozes da Regeneração | Lúcia Helena Galvão
Professora de filosofia da Nova Acrópole do Brasil, Lúcia Helena Galvão reflete sobre o que significa regenerar uma sociedade a partir do olhar filosófico. Para ela, a mudança que sustenta todas as outras começa na formação de cada ser humano.
O que significa regenerar uma sociedade a partir do ponto de vista filosófico?
Regenerar uma sociedade não é simplesmente mudar suas estruturas externas. Podemos mudar leis, governos, instituições, sistemas econômicos e tecnologias e, ainda assim, conservar os mesmos problemas sob novas formas. Porque toda sociedade é, em última instância, uma expressão do ser humano que a compõe.
Do ponto de vista filosófico, regenerar significa voltar a gerar a partir de princípios. É recuperar aquilo que dá vida e sentido a uma civilização: valores humanos, consciência de responsabilidade, capacidade de discernir o justo do injusto, o necessário do supérfluo, o bem comum do interesse particular.
Uma sociedade começa a se degradar quando o ser humano perde a referência de algo maior do que seus próprios desejos. Quando tudo passa a ser medido pela utilidade, pelo prazer, pelo poder ou pela vantagem pessoal, os vínculos se fragilizam. Podemos ter enorme desenvolvimento tecnológico e, ao mesmo tempo, um profundo empobrecimento humano.
A verdadeira regeneração não é apenas uma revolução externa, e sim uma revolução da consciência. Não significa abandonar a ação social, mas compreender de onde ela deve nascer. Se queremos construir um mundo mais justo, precisamos formar seres humanos capazes de justiça. Se queremos paz, precisamos educar pessoas que saibam governar seus próprios conflitos. Se queremos solidariedade, precisamos formar indivíduos capazes de ultrapassar o próprio egoísmo.
Que tipo de ser humano precisamos formar para que mudanças profundas no mundo sejam sustentáveis?
Precisamos dar ao ser humano não apenas informação, mas também formação. Alguém que saiba pensar por si mesmo e não apenas em si. Que tenha liberdade interior suficiente para não ser arrastado por seus impulsos, pelos modismos ou pela opinião coletiva. Que seja capaz de assumir deveres, e não apenas reivindicar direitos. Que compreenda que sua vida possui uma dimensão individual, mas também uma responsabilidade perante os demais e perante o seu tempo histórico.
Precisamos recuperar uma ideia muito antiga de educação: educar não é apenas preparar alguém para ganhar a vida; é prepará-lo para saber o que fazer com a própria vida. Isso implica desenvolver inteligência, naturalmente, mas também vontade, sensibilidade, caráter, sentido de justiça, capacidade de convivência e amor ao bem. Nenhuma mudança profunda se sustenta se depender apenas de fiscalização externa. Uma sociedade saudável precisa de pessoas que façam o correto não somente porque existe uma lei que as obriga, mas porque existe dentro delas uma consciência que as orienta.
Este é um dos grandes desafios do nosso tempo: temos formado excelentes profissionais, consumidores muito sofisticados e indivíduos extremamente informados, mas nem sempre temos formado seres humanos à altura dos instrumentos que colocamos em suas mãos.
Que pergunta você acredita que cada pessoa deveria fazer a si mesma antes de tentar transformar o mundo?
“Aquilo que eu desejo ver no mundo já começou a existir em mim?”
Se quero mais justiça, sou justo nas pequenas relações da minha vida? Se quero mais respeito, como trato aqueles de quem não preciso? Se quero um mundo menos violento, o que faço com a violência que surge nos meus pensamentos, nas minhas palavras, nos meus julgamentos? Se quero mais generosidade, quanto do meu tempo, da minha atenção e das minhas capacidades coloco a serviço dos outros?
É relativamente fácil identificar o que o mundo deveria mudar. Muito mais difícil é entender o que precisa mudar em mim para que eu deixe de alimentar exatamente aquilo que critico nos demais. A filosofia sempre nos recordou que o ser humano é, ao mesmo tempo, parte do problema e possibilidade de solução.
Sobre a entrevistada
Lúcia Helena Galvão é professora de filosofia da Nova Acrópole do Brasil, onde atua há 37 anos ministrando aulas e palestras sobre temas ligados à Filosofia. Tem mais de 1.300 palestras publicadas na internet, no canal do YouTube da Nova Acrópole Brasil, que reúne mais de 1 milhão de inscritos e 100 milhões de visualizações, e na plataforma Acrópole Play.
Autora de 15 livros, entre eles Para entender o Caibalion, O Simbolismo em A Divina Comédia, de Dante Alighieri e Tao-te ching: O livro do caminho e da virtude, também prefaciou obras de destaque, como A Guerra da Arte, de Steven Pressfield, e Luz no caminho, de Mabel Collins. Escreveu letras de música, como “Prudência”, cantada por Zizi Possi, e três roteiros para teatro.
É palestrante profissional no Brasil e no exterior, em empresas e órgãos públicos. Seus cursos sobre administração do tempo e técnicas de estudo já foram realizados por mais de vinte mil alunos.