Regeneração é o tema de 2026. Quais são os perigos que precisamos evitar para realmente transformar nossas realidades?

Por:
Luciana De Lamare

O termo turismo regenerativo vem ganhando espaço no Brasil e no mundo, mas sua popularização tem trazido um risco conceitual preocupante: a redução de um paradigma sistêmico a uma estética de mercado. À medida que o conceito se torna tendência, passa a ser associado a experiências exclusivas, hospedagens de alto padrão e narrativas sofisticadas de consumo consciente. Essa associação é não apenas limitada, mas perigosa.

Turismo regenerativo não é produto, não é nicho premium e não é categoria de luxo. Tampouco pode ser compreendido como uma simples evolução do turismo sustentável. A sustentabilidade opera dentro da lógica da gestão de impactos — reduzir danos, compensar emissões, mitigar externalidades. A regeneração não se limita a essa equação. Ela não parte da pergunta “como causar menos impacto?”, mas de outra muito mais profunda: como reorganizar as relações entre território, economia e pessoas para fortalecer capacidades vivas já existentes?

Quando o turismo regenerativo é associado a experiências de luxo, desloca-se o centro da discussão. O foco passa a ser o visitante, seu conforto e sua narrativa transformadora. No entanto, a regeneração verdadeira não se mede pela experiência individual do turista, mas pela transformação estrutural do território. Se a atividade turística cessa e o território permanece mais forte — com economia local consolidada, governança ativa, protagonismo comunitário ampliado e fluxos de valor circulando internamente — então houve regeneração. Se o território depende permanentemente da presença do visitante para manter seu equilíbrio, não estamos diante de regeneração, mas de dependência sofisticada.

O risco de elitização do conceito é especialmente sensível no contexto brasileiro. Em um país marcado por desigualdades históricas, biomas estratégicos e territórios vulnerabilizados, associar regeneração a luxo reduz drasticamente seu potencial de transformação social. O design regenerativo aplicado ao turismo oferece uma possibilidade muito mais ampla: estruturar desenvolvimento territorial a partir das vocações locais, ativar cadeias produtivas comunitárias, fortalecer identidades culturais e reconfigurar relações econômicas. O turismo, nesse cenário, é ferramenta. Nunca fim em si mesmo.

Regenerar não é adjetivar experiências, nem criar novos rótulos de mercado. É desenhar processos que ampliem autonomia territorial. É construir economias que permaneçam no território. É fortalecer capacidades humanas, culturais e institucionais. Quando o conceito é capturado por narrativas de exclusividade, ele perde sua dimensão política e coletiva.

O debate sobre turismo regenerativo no Brasil precisa, portanto, recuperar densidade técnica e responsabilidade conceitual. Não se trata de vender uma nova tendência, mas de consolidar uma abordagem metodológica capaz de produzir impacto positivo estruturante. Reduzir a regeneração a luxo é desperdiçar seu verdadeiro potencial: o de transformar territórios vivos a partir da sua base.

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